A?gua Virtual

Notícias | 14.09.12 | Nenhum Comentário

Brasil exporta cerca de 112 trilhA�es de litros de A?gua

Ao longo do ano, o Brasil envia ao Exterior cerca de 112 trilhA�es de litros de A?gua doce, segundo dados da Unesco.

ContA?ineres saem diariamente de portos na costa brasileira abarrotados de carne bovina, soja, aA�A?car, cafA�, entre outros produtos agrA�colas exportados para o mundo. Mas dentro deles hA? um insumo invisA�vel, cujo valor ultrapassa cA?lculos estritamente econA?micos: A A?GUA. A�

Ao longo do ano, o Brasil envia ao Exterior cerca de 112 trilhA�es de litros de A?gua doce, segundo dados da Unesco – o equivalente a quase 45 milhA�es de piscinas olA�mpicas ou mais de 17 mil lagoas do tamanho da Rodrigo de Freitas. Tantos litros sA?o o total dos recursos hA�dricos necessA?rios para produzir essas commodities. E colocam o paA�s como o quarto maior exportador de “A?gua virtual”, atrA?s apenas de Estados Unidos (314 trilhA�es litros/ano), China (143 trilhA�es litros/ano) e A?ndia (125 trilhA�es litros/ano).

A exportaA�A?o desse recurso, ainda que indiretamente, tende a crescer num cenA?rio de escassez global, pressionando o paA�s a pensar em polA�ticas pA?blicas voltadas A� gestA?o hA�drica.A posiA�A?o do Brasil no alto do ranking nA?o se deve tanto ao desperdA�cio da A?gua ou A� falta de produtividade nas atividades agropecuA?rias do paA�s, mas principalmente a um fenA?meno global de escassez dos recursos hA�dricos. Num momento em que paA�ses como Malta e Kuwait tA?m 92% e 90%, respectivamente, de “A?gua virtual” importada em seus produtos, o Brasil, com disponibilidade hA�drica e territorial, tende a ganhar relevA?ncia. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa EconA?mica Aplicada (Ipea), entre 2007 e 2010, as commodities avanA�aram de 41% para 51% no total de produtos vendidos pelo paA�s ao exterior.

As NaA�A�es Unidas (ONU) estimam que, atA� 2025, cerca de dois terA�os da populaA�A?o mundial estarA?o carentes de recursos hA�dricos, sendo que cerca de 1,8 bilhA?o enfrentarA?o severa escassez de A?gua. Na metade do sA�culo, quando jA? seremos 9 bilhA�es de habitantes do mundo, 7 bilhA�es enfrentarA?o a falta do recurso em 60 paA�ses. A A?gua, portanto, jA? A� motivo de conflitos em vA?rias regiA�es do mundo.

– A alocaA�A?o dos recursos hA�dricos, alA�m de ambiental, A� uma questA?o econA?mica, porque quando a A?gua A� escassa A� preciso destinA?-la para onde haverA? maiores benefA�cios para a sociedade. Mas sendo a A?gua um bem pA?blico, o mercado nA?o A� o A?nico determinante. A A?gua deve ser usada para produzir alimentos para a populaA�A?o, para culturas ligadas a biocombustA�veis ou para plantaA�A�es de commodities para exportaA�A?o? Isso A� uma escolha polA�tica – aponta Arjen Hoekstra, criador do conceito de “pegada hA�drica” e autor de diversos estudos sobre A?gua virtual numa parceria entre Unesco e a Universidade de Twente.

Recursos hA�dricos sem preA�o

Um dos principais parceiros comerciais do paA�s, a China possui 6% da A?gua doce do planeta e jA? sofre com uma escassez do recurso, aliada a uma reduA�A?o das terras agricultA?veis – desde 1997, o paA�s jA? perdeu 6% de sua A?rea cultivA?vel devido A� erosA?o e urbanizaA�A?o. No Brasil, o cenA?rio A� outro: o paA�s dispA�e 40% de terras arA?veis, abriga 12% da A?gua doce do planeta e recebe chuvas abundantes durante o ano em mais de 90% do territA?rio – ainda que numa distribuiA�A?o hA�drica desigual, com um semiA?rido de A?gua escassa.

– O Brasil nA?o tem dependA?ncia de irrigaA�A?o, precisa apenas administrar a A?gua da chuva. NA?o hA? tambA�m a questA?o populacional, com uma competiA�A?o entre agricultura e cidades. E enquanto na China hA? 250 mil unidades agrA�colas, no Brasil sA?o apenas 5 mil – enumera Marcos Jank, professor da Esalq-USP e especialista em agronegA?cio.

A crescente demanda por alimentos de um paA�s que pretende crescer 7,5% este ano provocou uma disparada nos preA�os das commodities brasileiras. Em 2011, a soja, principal produto exportado a Pequim, teve o preA�o elevado em 31,6%. A China tambA�m foi o principal destino das exportaA�A�es brasileiras, totalizando US$ 44,3 bilhA�es no ano passado.

– A tendA?ncia de queda dos preA�os das commodities foi revertida nesta A?ltima dA�cada com a escassez de A?gua e degradaA�A?o dos solos mundialmente. E a China foi a principal responsA?vel por essa uma mudanA�a no padrA?o de comA�rcio – afirma Jank. – O Brasil tem tudo para aproveitar isso, mas hoje a agricultura brasileira estA? se tornando um negA?cio de alto custo devido A�s taxas de cA?mbio, juros altos e problemas de infraestrutura. SA?o problemas domA�sticos que estA?o tirando a possibilidade de usar melhor o boom asiA?tico a nosso favor.

A soja brasileira exportada sustenta, sob a forma de raA�A?o, boa parte do rebanho bovino da China, que tem aumentado exponencialmente seu consumo de carne. Segundo projeA�A?o da “Economist”, o consumo de carne bovina na China entre 1985 e 2009 demandou em recursos hA�dricos o equivalente ao uso anual de A?gua em toda a Europa.

A?gua sustentA?vel

A pegada hA�drica tA?m ajudado a mudar o entendimento de que a A?gua A� algo finito e gratuito. O desafio agora, segundo especialistas, A� melhorar a precisA?o dos nA?meros para, assim, adotar o conceito no comA�rcio formal.

– Atualmente, ninguA�m paga o preA�o total pelo consumo de A?gua. A escassez e a poluiA�A?o precisam ser incluA�das no preA�o das commodities. Isso criaria um incentivo para consumir e poluir menos. Mas as legislaA�A�es tambA�m podem ser melhoradas e em alguns produtos pode ser A?til incluir o uso de A?gua sustentA?vel no rA?tulo – sugere Hoekstra.

A AustrA?lia, sexto maior exportador de A?gua virtual (89 trilhA�es de litros por ano), segue um modelo de distribuiA�A?o de recursos hA�dricos inovador. Foi o primeiro paA�s a instaurar um sistema de comA�rcio da A?gua em 1982: o governo define uma parcela a ser usada pelos agricultores, que podem vender parte dessas licenA�as de uso que acreditam estarem excedentes. As transaA�A�es pelos direitos de uso da A?gua no paA�s movimentaram US$ 1,5 bilhA?o entre 2010 e 2011, segundo dados divulgados pela ComissA?o Nacional de A?gua em dezembro passado. Hoje, o sistema passa por uma reforma para reduzir distorA�A�es de mercado e dar mais transparA?ncia A�s negociaA�A�es.

CrA�ticos afirmam que o modelo de privatizaA�A?o dos recursos hA�dricos deixa os agricultores sujeitos A�s flutuaA�A�es de mercado. O australiano Mike Young, do Instituto de Meio Ambiente da Universidade de Adelaide e autor do capA�tulo sobre A?gua do estudo ONU para a Rio+20, acredita que este sistema A� capaz de mensurar de forma eficiente o recurso e garantir a sua preservaA�A?o.

– Assim como a AustrA?lia, o Brasil tem muita A?gua, portanto estA? em vantagem em termos de usar este recurso de modo inteligente para produzir a maior quantidade de bens possA�vel. O futuro do manejo da A?gua estA? na alocaA�A?o deste recurso e nA?o em tentar quantificar precisamente quanta A?gua estA? incluA�da nas commodities exportadas – defende Young. – De fato, precisamos encontrar meios mais eficientes de usar a A?gua, mas nA?o A� preciso ficar preocupado com quanta A?gua A� usada em cada produA�A?o se o governo estabelece um sistema de alocaA�A?o. A� preciso entender que o comA�rcio cria grandes oportunidades de negA?cios.

No Brasil, a cobranA�a pelo uso da A?gua na irrigaA�A?o de plantaA�A�es funciona atravA�s de um sistema de outorgas, dada por A?rgA?os gestores estaduais ou pela AgA?ncia Nacional de A?guas, quando o recurso hA�drico A� de domA�nio da UniA?o. O sistema, vigente desde 1997, ainda enfrenta desafios, jA? que a fiscalizaA�A?o do uso da A?gua no setor agrA�cola A� mais difA�cil do que em A?reas urbanas e industriais, mais concentradas territorialmente.

– O controle dos recursos naturais vai se tornar mais complexo no sA�culo XXI porque o uso se tornarA? mais competitivo. O Brasil ainda tem uma A?rea de expansA?o agrA�cola, entA?o o paA�s precisa se planejar para as prA?ximas dA�cadas de modo que o crescimento da A?rea irrigada seja sustentA?vel – prevA? MA?nica Porto, engenheira ambiental da PolitA�cnica da USP. – NA?o hA? nada de errado em o Brasil exportar A?gua atravA�s das commodities se hA? essa disponibilidade hA�drica. A forma como isso A� gerenciado internamente A� o que importa, atravA�s do controle do uso e do aumento de produtividade.

Escolhas polA�ticas

A escassez de A?gua em alguns paA�ses, de fato, pode levar a escolhas polA�ticas para restringir a exportaA�A?o de alimentos. O governo de Israel, por exemplo, desencoraja a exportaA�A?o de laranjas – tradicionalmente cultivadas com um sistema de irrigaA�A?o pesado -, para evitar que grandes quantidades de A?gua virtual sejam exportadas para diferentes partes do mundo.

Mesmo no Brasil, abundante de recursos hA�dricos, precisa levar em conta o uso de A?gua nas culturas diante de uma distribuiA�A?o desigual em seu territA?rio. Menos povoada, a RegiA?o AmazA?nica concentra a maior parte da A?gua superficial do paA�s, enquanto a populosa RegiA?o Sudeste tem disponA�vel 6% do total da A?gua doce. No semiA?rido nordestino, os rios sA?o pobres e temporA?rios, o que acaba criando uma pluviosidade baixa.

– A pegada hA�drica tem que ter relaA�A?o com o local onde A� produzida a cultura agrA�cola. Produzir uma pecuA?ria leiteira no Agreste Nordestino vai demandar muito mais A?gua do que fazer o mesmo no Centro-Oeste, onde a pluviosidade A� muito maior – afirma o engenheiro ambiental Michael Becker, coordenador do Programa Cerrado da WWF Brasil. – Mas alA�m do viA�s da localizaA�A?o A� preciso ter em conta a prA?pria produA�A?o, buscando gastar cada vez menos A?gua bruta para fabricar o mesmo produto.

A otimizaA�A?o pode acontecer atravA�s de tA�cnicas de irrigaA�A?o mais eficientes, como o uso de gotejamento em vez de jatos d’A?gua; o melhoramento de sementes para o plantio em regiA�es com menos disponibilidade de A?gua; e desenvolvimento de tA�cnicas de contenA�A?o da A?gua da chuva. Estima-se que o setor agrA�cola jA? contribua atualmente com 92% do consumo total de A?gua no paA�s.

Apesar de a produtividade agrA�cola no Brasil ter apresentado grandes avanA�os – com um crescimento de 3,6 % ao ano, segundo estudo da OrganizaA�A?o para CooperaA�A?o e Desenvolvimento EconA?mico (OCDE) de 2011-, especialistas afirmam que A� preciso melhorar o diA?logo com o setor. A conturbada discussA?o do CA?digo Florestal no Congresso dA? indA�cios deste desafio.

– Ainda nA?o avanA�amos o suficiente na discussA?o entre o setor ambiental e agrA�cola para que se possa ter um entendimento comum de que um necessita do outro. Precisamos produzir, mas para realmente tirar proveito da exportaA�A?o de commodities precisamos entender a A?gua como um insumo de produA�A?o. O Brasil quer ter no futuro a seca de um Centro-Oeste americano ou preservar este recurso no aspecto de insumo para produA�A?o? Essa A� uma pergunta que veio para ficar e que vai se tornar cada vez mais frequente daqui para frente – aposta Becker.

AgA?ncia O GloboA�PorA�Thais Lobo ([email protected])A�|A�AgA?ncia O Globo

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