Somente 15% da A?gua usada no Brasil tem tratamento adequado - ACQUA
A?gua sem tratamento

Notícias | 23.04.11 | 1 Comentário

Somente 15% da A?gua usada no Brasil tem tratamento adequado

ReferA?ncia mundial na pesquisa cientA�fica sobre recursos hA�dricos, Carlos Eduardo Morelli Tucci, professor do Instituto de Pesquisas HidrA?ulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e engenheiro civil por formaA�A?o, anda A�s voltas na identificaA�A?o dos principais problemas de recursos hA�dricos no Brasil. Para isso, tem entrevistado gestores e especialistas e jA? pode esboA�ar algumas estatA�sticas: do que se usa de A?gua no paA�s, sA? 15% tA?m tratamento, eliminaA�A?o de impurezas.

A falta de tratamento A� o que mais afeta a disponibilidade hA�drica, segundo Tucci, porque o esgoto contamina os prA?prios mananciais de abastecimento de A?gua. Ele enfatiza: esse A� um problema de governo. Afinal, A?gua sem tratamento que volta para os rios traduz-se em doenA�as, principalmente quando ocorrem enchentes. AlA�m disso, Tucci lembra:

“O mundo caminha para uma urbanizaA�A?o perto dos 70%. A gestA?o urbana A� a grande questA?o brasileira. Oitenta e oito por cento da populaA�A?o brasileira A� urbana”, destaca o pesquisador.

Em julho, ele receberA? o International Hydrology Prize 2011, por sua contribuiA�A?o A� ciA?ncia e A� prA?tica de hidrologia. O prA?mio A� outorgado anualmente pela OrganizaA�A?o das NaA�A�es Unidas para a EducaA�A?o, a CiA?ncia e a Cultura (Unesco), a OrganizaA�A?o MeteorolA?gica Mundial (WMO) e a AssociaA�A?o Internacional de CiA?ncias HidrolA?gicas (IAHS).

Nesta entrevista, Tucci fala A� AgA?ncia Brasil sobre os problemas urbanos, em especial, da falta de tratamento de esgoto e dos problemas de gestA?o da A?gua. A seguir, os principais trechos da entrevista.

AgA?ncia Brasil a�� O Brasil tem um quinto A?gua doce do mundo, mas hA? lugares no paA�s em que a prA?pria rede desperdiA�a 70% da A?gua encanada. Essa A� mais uma contradiA�A?o nacional?

Carlos Tucci a�� Um paA�s com perdas eficientes fica abaixo de 15%. A perda da ordem de 15% A� considerada boa. Entre os paA�ses em desenvolvimento, a maioria estA? entre 36% e 40%. Isso depende muitas vezes da pressA?o, da topografia etc. Grande parte das perdas sA?o [perdas] fA�sicas. Nos condutos e sistemas que ficam velhos, A� mais caro encontrar o vazamento do que fazer uma nova rede. Isso sA? ocorre quando hA? falta de A?gua e os novos mananciais estA?o muito distantes e muito caros, aA� comeA�a haver uma preocupaA�A?o em tornar o sistema mais eficiente. Como nA?s nA?o cobramos pelo uso da A?gua, ela A� utilizada sem custos [abaixo do valor econA?mico], entA?o nA?o hA? busca pela eficiA?ncia. HA? uma outra questA?o bem institucional. As empresas abastecedoras nA?o sA?o eficientes. Isso tem a ver com o fato de serem monopA?lios. O preA�o da A?gua A� subsidiado porque o Estado paga para a empresa mesmo que ela esteja funcionando mal. Ou entA?o a empresa pode corrigir o preA�o da A?gua como ela quiser. Ela nA?o tem metas de eficiA?ncia. Este A� o ponto fundamental, em que vocA? poderia fazer reduzir perda.

ABr a�� JA? existe engenharia em outros paA�ses para a criaA�A?o de redes paralelas de reuso de A?gua e reaproveitamento na prA?pria residA?ncia. Por que isso A� incipiente no Brasil?

Tucci a�� Tem a�?na�? possibilidades de vocA? aumentar a eficiA?ncia do sistema, mas o que adianta melhorar a eficiA?ncia nas residA?ncias, se a rede estA? perdendo grande quantidade de rede de A?gua? O reuso A� interessante, mas o reuso tem que ter alguns cuidados bA?sicos, nA?o pode reutilizar toda a A?gua, por que ela A� contaminada.

ABr a�� HA? tecnologia e gente qualificada para fazer os sistemas de A?gua mais eficientes?

Tucci a�� O Brasil tem um expressivo nA?mero de pesquisadores na A?rea. Houve um investimento significativo na formaA�A?o de pessoal no exterior. O Brasil formou um grande nA?mero de profissionais bastantes atualizados, o que, evidentemente, nA?o quer dizer que tudo isso chegou A� parte prA?tica. Esse A� um dos grandes desafios da ciA?ncia e da tecnologia: fazer com que o conhecimento adquirido se torne nA?o um bem pessoal, mas um conhecimento adquirido para a sociedade.

ABr a�� O senhor jA? reclamou publicamente da burocracia para fazer pesquisa. Por quA??

Tucci a�� Parece que todo brasileiro A� ladrA?o atA� que se prove o contrA?rio. SA? para se ter uma ideia, eu estou voltando a fazer o que fazia com 13 anos. Com aquela idade, eu ia ao banco, levava papA�is. Agora, como coordenador de pesquisa, no nA�vel mA?ximo, eu sou obrigado a fazer o cheque de cada estudante bolsista. Na prestaA�A?o de contas, nA?o aceitam os extratos tirados na internet e, como eu nA?o posso ter cartA?o, porque a conta nA?o permite ter cartA?o, eu tenho que ir ao banco toda hora para tirar extrato assinado pelo banco. Quer dizer, isso, se vocA? nA?o estA? dizendo que todo mundo A� ladrA?o, o que A�? O paA�s estA? perdendo com isso. EntA?o, A� uma burocracia insana e eu acho que nA?s vivemos numa era macartista [perA�odo que foi do final da dA�cada de 40 a meados da dA�cada de 50, em que os americanos eram perseguidos politicamente, acusados de serem comunistas]. NA?s temos que provar todo dia que somos inocentes. Quando sai uma corrupA�A?o no andar de cima, todo o restante da sociedade paga por isso, em burocracia.

ABr a�� Voltando A� A?gua, como mudar a cultura do desperdA�cio?

Tucci a�� Eu estou fazendo vA?rias entrevistas [com gestores e especialistas] para identificar quais os principais problemas de recursos hA�dricos no Brasil e praticamente todos respondem a mesma coisa: falta de tratamento de esgoto. A falta de tratamento A� o que mais retira disponibilidade hA�drica, porque o esgoto contamina os prA?prios mananciais de abastecimento de A?gua. O tratamento A� menos do que 40%! As estatA�sticas sA?o pouco confiA?veis. Quando se diz que coleta de esgoto A� de tanto, nA?o significa que A� tratado. EntA?o ao coletar, o esgoto continua poluindo. Nas minhas contas, daquilo que nA?s usamos de A?gua, tratamos e eliminamos as impurezas na ordem de 15% ou, no mA?ximo, 20%. Isso A� um problema de governo, de estabelecer o que vamos atingir em tal ano. A� preciso estabelecer um plano estratA�gico para o tratamento de esgoto que defina o que vai ser feito: vou pegar as cidades menores; vou pegar as cidades maiores; onde eu vou incentivar as empresas para fazer tratamento de esgoto? Elas jA? cobram pelo esgoto na hora que coletam, entA?o para que vA?o fazer tratamento?

ABr a�� Como assim?

Tucci a�� Elas cobram tudo que precisam cobrar de esgoto sA? por coletar, sem tratar. EstA? tudo errado nesse ponto.

ABr a�� Podemos dizer, entA?o, que o Brasil domina apenas a tecnologia de transportar esgoto?

Tucci a�� NA?o faz tratamento, faz pouco tratamento. E, na grande parte do Brasil, nem transportar faz, eles jogam o esgoto na drenagem. AlA�m de destruir o sistema de drenagem, cria outros problemas.

ABr a�� A consequA?ncia disso A� a prevalA?ncia de doenA�asa��

Tucci a�� Sem dA?vida nenhuma. HA? aA� um potencial de doenA�as, principalmente quando inunda, mistura tudo e atinge as pessoas, como a leptospirose. HA? outras doenA�as que vA?m com a prA?pria A?gua pluvial [da chuva], que tem uma grande contaminaA�A?o de metais, por causa da lavagem da superfA�cie urbana.

ABr a�� O que estA? previsto no Programa de AceleraA�A?o do Crescimento [PAC] nA?o A� suficiente?

Tucci a�� Eu nA?o conheA�o todos os detalhes dos investimentos [do PAC], mas me parece que sA?o feitos por demandas especA�ficas do municA�pio. Na minha opiniA?o, deveria ser num plano estratA�gico nacional em que priorizassem a despoluiA�A?o de determinadas cidades. O saneamento tem que comeA�ar do rio para a cidade e nA?o da cidade para o rio. Ou seja, se define o que o rio precisa para estar despoluA�do e define o nA�vel de tratamento que tem que ter a cidade, para reduzir, para chegar A�quela meta de tratamento.

ABr a�� O governo [federal] jA? criticou os municA�pios pela falta de projetos dizendo que nA?o faltam recursosa��

Tucci a�� Sim, mas falta projeto porque o governo trabalha como se fosse um banco. VocA? acha que todos os municA�pios tA?m qualificaA�A?o para fazer os seus projetos?

ABr a�� Como o senhor disse, mesmo que os municA�pios tenham qualificaA�A?o, as companhias nA?o ter A?o interessea��

Tucci a�� Muitas vezes nA?o tA?m. Em um programa estratA�gico, hA? capacitaA�A?o, criaA�A?o de incentivos econA?micos. VocA? nA?o pode sentar lA? como se fosse um banco e falar assim: a�?estou aqui, vocA?s venham buscar dinheiroa�?. O sistema nA?o funciona assim. AlA�m disso, as obras do PAC geralmente sA?o para canalizaA�A?o e sA? canalizaA�A?o aumenta o problema.

ABr a�� Por quA??

Tucci a�� Porque quando se canaliza, se transfere a enchente de um lugar para outro e com muito maior vazA?o. Aumenta a vazA?o e os custos geralmente sobem de seis a dez vezes.

ABr a�� O senhor pode explicar melhor?

Tucci a�� Por exemplo, hA? um local que estA? inundando, aA� vocA? canaliza. Essa vazA?o canalizada foi ampliada, sA? que, no rio abaixo, nA?o houve ampliaA�A?o da capacidade de recepA�A?o, entA?o vai inundar mais abaixo. O custo de vocA? canalizar toda a cidade A� muito alto. No mundo inteiro, desde os anos 1970 nA?o se faz mais isso.

ABr a�� O que fazer, entA?o?

Tucci a�� VocA? tem que tirar o esgoto, dar uma soluA�A?o para o lixo e fazer uma recuperaA�A?o ambiental da A?rea. Tem que ter terra e mecanismos de sustentabilidade. Em Seul [Coreia do Sul], um candidato a prefeito chegou em uma A?rea que estava toda coberta de concreto. Tinha viaduto por cima, completamente fechado e ele prometeu que ia recuperar aquela A?rea. AA�, ele ganhou a eleiA�A?o. Em seis meses, eles fizeram um projeto de receptaA�A?o do esgoto, retiraram todo viaduto do concreto de cima, porque nA?o se pode admitir mais hoje fechar um rio. Isso A� inadmissA�vel ambientalmente! O prefeito recuperou tudo isso, arrumou o trA?fego, pA?s o transporte em gestA?o integrada e criou mecanismos de amortecimento de certos sistemas e tornou aquela A?rea ambiental. Hoje , ele A� o presidente da RepA?blica da Coreia do Sul [Lee Myung-bak]. Isso dA? voto tambA�m. Tem que haver uma busca de soluA�A?o integrada: tirar o lixo, tirar o esgoto, amortecer o escoamento e fazer com que a A?gua melhore de qualidade. Junto ainda, tem o trA?fego e a urbanizaA�A?o. A gestA?o urbana A� a grande questA?o brasileira. Oitenta e oito por cento da populaA�A?o brasileira A� urbana e estA? ocupando 0,3% a 0,4% da superfA�cie do paA�s. Imagina o que A� uma demanda de recursos naturais em um pouco espaA�o, imagine o caos que vai se formandoa��

ABr a�� A soluA�A?o A� desconcentrar a populaA�A?o e interiorizar o paA�s?

Tucci a�� Isso nA?o tem reversA?o. A� a economia moderna, nA?s saA�mos da agricultura para a indA?stria. A� o mundo dos serviA�os e os serviA�os estA?o nas cidades, o mundo vai chegar, em 2050, com 70% da populaA�A?o urbana, que hoje estA? em 50%. Todo mundo que nascer daqui para frente vai para a cidade e sem contar com os que vA?m do campo, devemos ter uma distribuiA�A?o urbana maior.

Por Gilberto Costa – AgA?ncia Brasil

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amauri santori

26/11/2016

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